quinta-feira, 31 de julho de 2008

Amigo é Casa


Há tempos ando irriquieto. Concentro-me pouco, descubro a cada dia que desconheço a mim mesmo. Mas sempre quando imagino que o poço é mais fundo do que ele aparenta, há de me aparecer quem não me deixa esquecer que a estrada vai muito além do que se vê.

Para vocês, parceir@s do dia-a-dia, parceir@s separados pelo nosso diário instinto de sobrevivência, companheir@s e camaradas que comigo levantam as bandeiras vermelhas de hoje, amanhã e outrora, a porta sempre estará aberta (e a caixa de emails vazia!)...

PS: uma dedicatória tardia, porém muito especial, àqueles que, mesmo debaixo de chuva (e debaixo do orelhão e de muitas reclamações!!), me fizeram sorrir bastante!!

(Capiba / Hermínio Bello de Carvalho)

Amigo é feito casa que se faz aos poucos
e com paciência pra durar pra sempre
Mas é preciso ter muito tijolo e terra

preparar reboco, construir tramelas
Usar a sapiência de um João-de-barro
que constrói com arte a sua residência
há que o alicerce seja muito resistente

que às chuvas e aos ventos
possa então a proteger


E há que fincar muito jequitibá
e vigas de jatobá

e adubar o jardim e plantar muita flor
toiceiras de resedás

não falte um caramanchão
pros tempos idos
lembrar
que os cabelos brancos vão surgindo

Que nem mato na roceira
que mal dá pra capinar

e há que ver os pés de manacá

cheínhos de sabiás

sabendo que os rouxinóis vão trazer arrebóis

choro de imaginar!
pra festa da cumieira não faltem os violões!
muito milho ardendo na fogueira

e quentão farto em gengibre

aquecendo os corações


A casa é amizade construída aos poucos

e que a gente quer com beira e tribeira

Com gelosia feita de matéria rara

e altas platibandas,
com portão bem largo

que é pra se entrar sorrindo

nas horas incertas
sem fazer alarde,
sem causar transtorno


Amigo que é amigo quando quer estar presente
faz-se quase transparente sem deixar-se perceber

Amigo é pra ficar, se chegar, se achegar,

se abraçar, se beijar, se louvar, bendizer

Amigo a gente acolhe, recolhe e agasalha
e oferece lugar pra dormir e comer


Amigo que é amigo não puxa tapete

oferece pra gente o melhor que tem
e o que nem tem
quando não tem,
finge que tem,
faz o que pode
e o seu coração reparte que nem pão.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Teses

A jovem estudante queria ‘qualquer coisa, dona Célia, que fale sobre A mulher e seu condicionamento de explorada pelo machismo’. Era este o título da obra. ‘Vale muitos pontos, sabe?’ Cursava a última série do segundo grau e usava muito mal as palavras, o que me predispunha a uma raiva perigosa das escolas, que eu certamente iria descontar nela. Fiz de desentendida: condicionamento de explorada? É, ela falou meio confusa, essas coisas de apanhar de homem, ser estrupada, ganhar de menos que eles, a senhora entende, né? Serve uma poesia? Perguntei já com um autor na cabeça. Não, poesia, não, poesia é sempre coisa muito – como é que é gente? –, muito assim de leve, não é? E eu quero uma coisa forte, a senhora entende, a professora é fogo na jaca. Meio macha? Ah, dona Célia, como é que a senhora adivinhou? Eu estava gostando da tortura: então, você quer um texto em prosa? Em prosa? Repetiu como se ouvisse língua estrangeira. Não, decidiu categórica, não. Não é nem em poesia, nem em prosa. Quero é um artigo de umas vinte linhas, tipo artigo de jornal, arrematou quase doutora, olhando no relógio. Dá pra senhora fazer? Nem repare eu não entrar, tenho ainda pesquisa de ecologia pra fazer. A moça era muito bonita e preferia que fosse analfabeta. A deficientíssima instrução burlava nela algo muito delicado, punha em sua voz uns meios-tons acima do natural, tisnava de ansiedade sua respiração, com a horrível qualidade dos males inconscientes. É sal em carne podre, pensei, não vou fazer artigo nenhum. Primeiro, porque as mulheres são as culpadas de todo mal, portanto merecem o que sofrem. Segundo, porque não vou salvar a escola do Brasil, nem esta menina, escrevendo lugares-comuns sobre nossa condição. Terceiro porque não quero colaborar com esta mania estúpida das escolas de ‘trabalharem o folclore’, ‘trabalharem o social’ e o que mais seja, nestas ocasiões fixas como calendários lunares: trabalhinos, textinhos, exposiçõezinhas, tudo como num ritual de boas maneiras. Nada desce aos intestinos, vero lugar da aprendizagem. Dia da Mulher? Ah, sei. E daí? Não posso te ajudar, não, Neide Ângela. Não?? Ela falou assustada. Mas vou te emprestar um livro. Livro? Ah, disse decepcionada demais. Não tenho tempo de ler, não, dona Célia, é matéria demais, uma outra hora a senhora me empresta. Tão bonita ela, podia cuidar da vida enquanto descobria sua vocação real, ser uma manicura competente, uma doceira de fama, mas não, quer ‘fazer faculdade’. Quer porque quer. De quem é a culpa, já que as escolas são ma-ra-vi-lho-sas? Ela periga tomar bomba. Está aí, vou contribuir caprichadamente para que ela tome bomba, para que volte este acontecimento formidável da escola antiga, a Bomba, e recuperemos todos a capacidade de sentir medo e respeito. E nem vale ela me olhar com este olhar pidão.


(Adélia Prado. In: Filandras)

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Motriz

Hoje, só uma canção.



Embaixo, a terra; em cima, o macho céu
E, entre os dois, a idéia de um sinal
Traçado em luz
E em tudo, a voz de minha mãe...
E a minha voz na dela...
A tarde dói...
De tão igual.

Que tarde que atravessa o corredor!
Que paz!
Que luz que faz!
Que voz... que dor...
Que doce amargo cada vez que o vento traz
A nossa voz que chama,
Verde do canavial,
Canavial...

E nós, mãe:
Candeias
Motriz!

Aquilo que eu não fiz
e tanto quis
É tudo o que eu não sei,
Mas a voz diz
E que me faz,
E traz capaz
De ser feliz
Pelo céu, pela terra
A tarde igual
Pelo sinal
Pelo sinal

E nós, mãe
E a Penha - Matriz!
Motriz...
Motriz...

(Caetano Veloso)